História

A independência das colônias inglesas da América do Norte

A independência das colônias inglesas da América do Norte
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Em 1776, um militante político que tivesse como lema a defesa da liberdade provavelmente se orgulharia do movimento de independência das 13 colônias inglesas da América do Norte. Não à toa. O acontecimento representava um golpe de morte nos regimes absolutistas europeus. Mais do que isso, colocava em prática várias das ideias propagadas pelos iluministas.

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Hoje, mais de 200 anos depois do movimento, inúmeros militantes progressistas não titubeariam em classificar os Estados Unidos como uma das nações mais conservadoras do mundo. E isso por vários motivos, sobretudo por impor o seu domínio a outros povos, contrariando os próprios princípios de liberdade.

A terra da liberdade

olonias inglesas da América do NorteNo fim do século XVIII, em seu imenso império colonial, a Inglaterra contabilizava, além dos territórios conquistados na Guerra dos Sete Anos, 13 possessões na América do Norte. No continente, elas seriam as primeiras a se transformar em país independente, ainda que apresentassem muitas diferenças entre si.

A ocupação nas colônias do sul aproximava-se mais do modelo implementado pelos colonizadores espanhóis e portugueses. Sob rígido controle da metrópole, sua economia estava voltada à produção de gêneros agrícolas para exportação, em grandes fazendas monocultoras, com uso da mão de obra escrava de origem africana. Eram as chamadas plantations.

Já nas colônias do norte a ocupação ocorreu de forma mais autônoma. Com uma economia menos complementar à da metrópole, os-colonos pagavam inclusive menos impostos. Muitos se dedicavam ao comércio e à produção de manufaturas. No campo, predominavam as pequenas propriedades.

A liderança do processo de independência coube justamente a essas colônias do norte. Várias delas, afinal, formaram-se com base no espírito revolucionário inglês do século XVII. Em outras palavras, prezavam a liberdade do indivíduo e opunham-se à opressão dos governos absolutistas.

Para os colonos locais, fugidos de inúmeras perseguições — políticas, religiosas —, a América apresentava-se como terra de oportunidades. As sociedades construídas ao norte eram marcadas por uma quase liberdade da metrópole. Cabia aos moradores decidir, por exemplo, muitos dos rumos da administração local. Assim, puderam enriquecer com o comércio realizado com outras colônias do norte do continente e do Caribe, com povos africanos e, também, europeus.

Esse quadro começou a mudar quando a Inglaterra adotou política colonial mais rígida em meados do século XVIII. O motivo principal estava na Guerra dos Sete Anos, que alterou as fronteiras coloniais na América do Norte e obrigou a Inglaterra a buscar mais recursos para pagar as contas do conflito.

Cenário de conflito

cenário de conflitoEntre 1756 e 1763, um conflito envolveu diversos reinos da Europa: de um lado estava a coligação formada por França, Rússia, Áustria, Suécia e Saxônia; de outro, Prússia e Inglaterra. O estopim para a guerra foi a intensa rivalidade entre os reinos europeus pelo comércio marítimo.

Disputado por franceses e ingleses, por exemplo, os negócios com a índia eram um dos mais rentáveis e obrigavam os britânicos a manter diversas possessões na África apenas para garantir a rota que conduzia à Ásia. Na América do Norte, por sua vez, as rivalidades ficavam por conta dos limites entre os núcleos coloniais ingleses e franceses, sobretudo entre o Canadá e as 13 Colônias Inglesas. Em 1761, Espanha e Portugal envolveram-se na guerra.

Em 1763, o conflito chegou ao fim, com um acordo que deu a vitória aos ingleses. Os britânicos ganharam parte do Canadá, da Louisiana e da Flórida, além do reconhecimento das conquistas feitas nas Antilhas. Para os espanhóis e portugueses, a guerra ocasionou conflitos na região do rio da Prata, resolvidos apenas em 1777, com o Tratado de Santo Ildefonso (ver capítulo 9).

Apesar da vitória, os altos custos militares interferiram de forma negativa nas finanças da Inglaterra. Para resolver a situação, o governo aprovou, entre outras iniciativas, medidas que alteravam as relações coloniais. Com isso diminuiu a autonomia de várias das 13 Colônias Inglesas, onde nem sequer eram aplicadas as leis de navegação, que obrigavam o transporte das mercadorias em navios britânicos.

Ampliando o vínculo

Em 1764, os ingleses estabeleceram o Sugar Act (Lei do Açúcar), que proibia a importação de rum e dos demais derivados da cana-de-açúcar. Este só poderia vir das índias Ocidentais Britânicas (Jamaica, Tobago, São Vicente e Granadinas, entre outras ilhas do Caribe), e mesmo assim com elevados impostos.

Os comerciantes da Nova Inglaterra compravam melaço — um subproduto da cana-de-açúcar — e o transformavam em rum. Mercadoria de grande importância na economia local, o produto era trocado por escravos na costa da África, que eram revendidos a colonos do sul. A nova taxa inviabilizava essa rede de troca, ao provocar o aumento expressivo dos custos, prejudicando os comerciantes.

Em 1765, o governo decretou leis mais restritivas. Pela Lei dos Alojamentos (ou da Hospedagem), os colonos ficavam obrigados a receber as tropas britânicas em serviço na América, abrigando os soldados em casa e arcando com os custos da estada. No mesmo ano, o Stamp Act (Lei do Selo) determinava que jornais, livros e documentos publicados nas colônias deveriam pagar uma taxa, que seria incorporada ao preço final. O selo assinalava o tributo.

Situação intolerável

Entre as primeiras reações, destaca-se o Congresso da Lei do Selo, ocorrido em Nova York, no qual os colonos decidiram interromper o comércio com a Inglaterra e suspender o pagamento de impostos. Alegavam que, por não disporem de representação no Parlamento, o órgão responsável pela instituição dos tributos, não podiam cumprir suas determinações.

Com a mobilização e o apoio de setores da sociedade inglesa, eles conseguiram revogar a Lei do Selo em 1766. A questão dos tributos, porém, não estava encerrada. No ano seguinte, seriam impostas novas taxas aos colonos.

Em 1773, o governo aprovou a Lei do Chá, que concedia à Companhia das índias Orientais o monopólio da venda do produto nas colônias. Revoltados, cerca de 20 comerciantes disfarçaram–se de índios, atacaram e destruíram os carregamentos de chá de três navios da Companhia, atracados no porto de Boston. O episódio ficou conhecido como The Boston Tea Party. O incidente elevou a tensão entre colônia e metrópole.

Em represália, o rei Jorge III editou, em 1774, uma série de medidas chamadas pelos colonos de leis intoleráveis. Entre elas estava o fechamento do porto de Boston até que a Companhia das índias Orientais fosse indenizada. A colônia de Massachusetts perdia também autonomia administrativa e passava a ser governada por um representante nomeado diretamente pelo governo britânico. Funcionários ingleses só poderiam ser julgados na metrópole ou em outras colônias.

Ao mesmo tempo, o governo britânico ficava autorizado a punir os envolvidos em distúrbios políticos. As terras a oeste das 13 Colônias, por fim, passavam para a jurisdição do governador de Quebec (atual Canadá). Isso impedia que os colonos expandissem seus territórios e participassem do comércio ali praticado com os povos indígenas.

Os colonos tomaram, então, providências para manter a autonomia. Em setembro de 1774, com representantes de cada uma das 13 Colônias, ocorreu o Primeiro Congresso da Filadélfia. Começava a se moldar uma unidade entre os núcleos coloniais. O Congresso decidiu o bloqueio do comércio com a Inglaterra até que as leis fossem revogadas.

As exigências dos colonos não foram atendidas. Ao contrário, o impasse levou ao início da Guerra de Independência dos Estados Unidos.

Guerras pela independência

Congresso da FiladelfiaComandadas pelo general Thomas Gage, as forças inglesas atacaram Lexington e Concord em abril de 1775. Pretendiam recuperar o controle de um depósito de armas e munições em poder dos colonos. No mês seguinte, realizou-se o Segundo Congresso da Filadélfia. George Washington acabou nomeado comandante das forças militares rebeldes e ficou decidido que o escritor e pesquisador Benjamin Franklin seguiria para Paris em busca do apoio dos franceses.

Os colonos, enfim, foram convocados a pegar em armas e lutar contra as tropas inglesas. Com os combates em andamento, as 13 Colônias proclamaram sua independência e a criação dos Estados Unidos da América em 4 de julho de 1776. A Declaração de Independência, redigida por Thomas Jefferson, inspirava-se nos ideais iluministas, com a defesa da liberdade individual e o respeito aos direitos fundamentais do ser humano.

Enquanto isso, os combates prosseguiam. Formada por camponeses, comerciantes e lenhadores, a força militar dos colonos tentava resistir contra o bem treinado e armado Exército inglês.

Os rumos da guerra só começaram a mudar após a vitória dos norte-americanos na batalha de Saratoga, em 1777, quando chegaram reforços de aproximadamente 6 mil soldados da França e da Espanha. Para esses dois reinos, além de enfraquecer a Inglaterra política e economicamente, o conflito representava a oportunidade de recuperar os territórios perdidos na Guerra dos Sete Anos.

O último grande combate pela independência ocorreu em 1781, em Yorktown. Dois anos depois,

Os Estados Unidos

Ao proclamar a independência, as 13 Colônias formaram uma república presidencialista e federativa: os Estados Unidos da América. Para elaborar a Constituição, cada estado enviou representantes à Convenção Constitucional de Filadélfia. Duas correntes políticas se distinguiram: os republicanos, liderados por Thomas Jefferson; e os federalistas, liderados por Alexander Hamilton e George Washington.

Os republicanos defendiam um poder central forte, enquanto os demais acreditavam que os estados deveriam contar com autonomia e poucos palpites impostos pelo governo. Editada em 1787, os ingleses reconheciam pelo Tratado de Paris a autonomia das ex-colônias e devolviam territórios aos espanhóis (Flórida) e aos franceses (Senegal, na África, e parte das Antilhas).

Não se pode afirmar que existia um ideal nacionalista entre a população das 13 Colônias. Com interesses distintos, o que as unia era, sobretudo, um profundo sentimento antibritânico. O nacionalismo só se mostrou presente ao longo do século XIX, quando a independência já estava consumada.

a Constituição apresentava elementos de ambas as correntes. Incorporava ainda concepções de iluministas como Locke, Rousseau e Montesquieu. O Estado que se formava resultava de uma espécie de contrato social, expresso nas leis.

O poder se dividia em três esferas — Executivo, Legislativo e Judiciário — que deveriam agir de forma independente, sem o predomínio de nenhuma. Apesar de receber várias emendas, essa Constituição vigora até hoje. Por unanimidade, a Convenção elegeu George Washington presidente do país. Determinou, ainda, a construção de Washington para ser a capital federal.

Revolução Americana, pode ser considerada um dos acontecimentos que abalaram os alicerces do Absolutismo na Europa. Afinal, foram os primeiros a romper com os vínculos coloniais, fonte de renda dos governos absolutistas, e a incentivar os movimentos baseados nos princípios iluministas.

As consequências do movimento

A Revolução acabou também repercutindo em outras partes da América, mostrando que a separação da metrópole era possível e, assim, servindo de exemplo para ações semelhantes. O movimento de independência dos Estados Unidos, por fim, é visto por muitos como a pilastra que fundou o maior império do mundo atual, os Estados Unidos.

O processo de independência americana, porém, guarda várias contradições. Entre seus ideais estava o direito à liberdade, à felicidade e à prosperidade. Esses princípios, porém, aplicavam-se apenas aos homens adultos e brancos. As mulheres, por sua vez, contavam com direitos restritos. Não podiam votar nem ser eleitas. A escravidão também foi mantida — sendo abolida apenas após uma sangrenta guerra civil em meados do século XIX. E, mesmo assim, até os dias de hoje, o preconceito racial continua sendo uma triste e marcante característica da sociedade norte-americana.

A maior potência do mundo

Ninguém tem dúvida: a maior potência do mundo contemporâneo são os Estados Unidos. Uma condição conquistada, sobretudo, ao longo do século XX, quando o país manteve constantes guerras para acumular novas áreas de influência e manter as antigas regiões de domínio.

Nessas décadas, em resumo, os Estados Unidos enviaram suas tropas para Cuba, Nicarágua, Vietnã,

Indonésia, Iugoslávia, Iraque, entre muitos outros lugares (ver mapa na página a seguir). Segundo o linguista norte-americano Noam Chomsky, essas ações configuram-se ainda como uma política para eliminar qualquer oposição ao país, sobretudo as experiências que possam servir como alternativa ao seu poder, garantindo, assim, a hegemonia norte-americana.

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